domingo, 20 de janeiro de 2008

" nascimento "

dia 3 á tarde, tipo ás 6h, fui á médica, que me fez um toque um pouco forte, penso que para despoletar o processo, mesmo...
depois fomos jantar fora a um sitio optimo que adoramos..umrestaurante frances chamado 'le gout au vin' á frente da assembleia da republica, nem é muito caro, e tem uma qualidade gourmet...entao, estamos neste restaurante, onde só tinhamos ido uma vez para celebrar um ano de casados...
e eu sem saber estava a fazer a dilatação!
doia-me um pouco, mas era suportável.
Ainda fomos para casa de autocarro, caminhando do restaurante até santos...Em casa, por volta da meia noite, deitamo-nos e eu comecei a ter dores a intervalos regulares...de 5 em 5 minutos, com a duraçao de 40 segundos cada.
Mas suportavel.
E eu disse ao Miguel: vamos ao hospital ver o que isto é. O mais certo é voltar para casa, mas já que ando com insónias, embora lá, quefazemos tempo...E ele : deixa-me só acabar de ver o CSI!
Era para eu rir, claro!
Desejosos estavamos nós que fosse hoje!
Chamámos um taxi e lá fomos. O taxista era simpático, fomos á conversa o tempo todo, e ele foi devagarinho.Entrámos nas urgencias da estefania ás 00:30m...E estava só eu. Fui logo atendida, depois de algumas contracçoes mais fortes...Parecia que o Hospital estava ali só para nós.
As contracções sabiam muita bem, porque pensei que podia ser mesmo agora que ia começar a viagem!
A cada uma que vinha eu ficava a sentir-me protagonista da coisa maisincrivel da minha vida: ir dar á luz uma pessoazinha nova.Eu até desejava cada contracção. Nunca contrariei nem pensei que queria que a dor passasse. Conscientemente eu sabia que aquilo me levaria a um fim de modo que nunca perdi o controle.
Fui vista por uma médica e um médico, apresentei a minha história e expliquei que pelo sim pelo nao tinha vindo até ao Hospital.. Ele viu-me e disse : Ai, pois está, está! Fez bem em vir, está com 5 para 6 cm de dilatação. Vai subir para a sala de partos.
Telefonei aos meus pais a dizer que devia ser hoje. O meu pai é médico na estefania e foi logo para lá. Eu disse lhe, olha pai isto deve serhoje, estou com meia dilatação e nem quero epidural, vai ser hoje. E ele : Ai queres queres! Vou ligar para as anestesistas, e vou já para aí.
Subimos, e o Miguel veio comigo. Ele assistiu ao parto, esteve ao meu lado o tempo todo! Até o mandarem para casa, no fim...porque nao podia dormir lá.
Lá em cima entrei na sala de partos, puseram me a soro e um oxigeniozinho no nariz muito agradavel que relaxava.
Vieram as anestesistas e perceberam que eu nao tinha feito consulta de anestesia...E ia ser dificil.. Mas eu disse que não queria epidural.Nao queria porque tinha medo que me parasse a dilataçao e eventualmente me atrasasse o processo que eu estava a ansiar há muito tempo.
Só de pensar que poderia atrasar o momento ... preferia mil vezes as dores. Explicaram-me que eram muito pro, e que isso nao iria acontecer... iam dosear muito bem...
E eu...Bem eu gostava de tentar naturalmente...Se de facto nao conseguir e me descontrolar, entao talvez ate queira epidural... Se isso fôr bom para o parto...Mas á primeira contracção mais forte (depois de um toque que viram que ja tava com 7 dedos) comecei a dizer ...AI, afinal quero epidural, quero epidural..
A dor passa e eu... Quer dizer, se calhar nao quero, nao... Não quero epidural e ponto final. Quero despachar isto e nada que o possa atrasar eu quero.
E a anestesista: Tudo bem, nós estamos aqui e podemos dar-lha sempre que quiser, ok?
E eu ok, deixem-me entao ver até onde eu aguento... se nao aguentar eu peço.E com isto fui avançando... A cada dor eu dizia... eu aguento, vamos lá. Deem me agua, por favor, Miguel! dá-me uma compressa para eu chupar...
De repente na sala só estava uma enfermeira chefe que parecia uma barbie de 60 anos, que passou o tempo todo sentada a escrever. as duas anestesistas á minha esquerda, a fofocarem sobre ferias no brasil e outras futilidades que devia ser para me distrair, mas eu achei muito sem saborão... e uma enfermeira muito nova, dos seus 23 anos... que meia fazendo o toque e dizendo - tem um rebordozinho, vamos esperar mais um pouco...
-Ela está-se a portar muito bem.. ouvi dizer de vez em quando.. sim senhor! é preciso ter coragem!
e eu : é preciso querer ter este parto...(se voces soubessem há quanto tempo estou á espera)
Pedi a agua e la conseguiram que alguem arranjasse um copo de plastico. deram no ao miguel. nao era a compressa como eu tinha pedido! o Miguel leva o copo á boca e todos! e pá o pai é que bebe! a água era para a mae, mas ele tambem quer! jocosas...e nessa fracçao da frase o que o miguel tinha feito era encher a boca de agua e dar-me á boca como fazem os passarinhos.
foi lindo!
Eu com o calor e com a animalidade a subir-me á flor da pele, tiro aparte de cima da bata, fico so com esta enfiada no braço direito , o do soro...e com um lençol sobre a barriga, que ora me tapava, ora me deixava a descoberto. Imagino.. o meu corpo enorme sobre uma mesa, a contorcer-se sem posiçao quando vinham as contracçoes... a falar a comunicar com a sala... a dizer 'está quase, está quase!' e cálculo que isto tenha irritado uma estagiaria que passava por mim frequentemente e compunha-me as vestes, até que me diz arrogante: tape-se! tem mesmo QUE estar assim? (e emenda para uma compostura mentirosa) quer mesmo estar assim? e eu SIMM está um calor dos diabos! nao me importa!
gritei!
Mas nao me descompuz... e aquilo para mim fazia parte do modo como queria parir: queria estar toda nua e nao com aquelas batas ridiculas de feias...
parecem um colete de forças dos maluquinhos... Eu já tinha visto videos de partos e parece-me muito confortavel estar-se nua. No dia seguinte escrevi umas coisas sobre a nudez, tenho que inserir aqui...
Entra outra vez a medica de 23 anos la vai fazer um toque... e dizer ainda tem um rebordozinho.. e eu faço força? e ela? sim, se quiser pode fazer... insegura...
e eu... nesta altura, já com 10 dedos, mas com um rebordozinho, e com contracçoes valentes...já nem pensava em epidural...so pensava em que estava quase a acontecer! mas estava a custar um pouco e eu sabia que agora é que ia ser aquele esforço final...
e as dores eram tipo uma dor de dentes tao forte que só queres arrancar o dente e a modos que alivia se carregares no dente ou na gengiva....
Nesse contexto eu disse, depois de ela ter feito um toque daqueles que metem a mao toda lá dentro e sentem a cabeça do bébé...e depois de nomeio desta confusao ja me terem cortado as águas com uma tesoura de modo a dar contracçoes daquelas super FORTE...!
Neste contexto eu digo á miuda,,, ai nao se vai embora! nao pode meter a mao outra vez lá dentro!!? E ela ri-se nervosa, com cara de parva, embasbacada, como quem diz 'esta mulher ou é fufa ou é maluca! e diz tudo o que lhe vem á cabeça!' ri-se , cala-se tudo (as outras senhoras que tagarelavam alegremente sobre tudo e mais alguma coisa, carros das filhas, ferias, saldos, yo qué sé!) a enfermeira-chefe - barbi de 60 anos, levanta os olhos do que está a escrever, como se de repente algo finalmente fosse digno do seu interesse ... e a miuda... sai de o pé de mim embasbacada... e eu pensei.. bolas! lá se foi...
Mas até foi porreirinha porque depois voltou... naquela que vinha fazer outro toque de rotina e nao aceder ao meu desejo de parturiente... e lá fez a manobra ou massagem no colo ou lá o que é , e de facto era tipo uma massagem de dentro para fora, que estimulava a vontade de fazer força.
Nesse intervalo em que a miuda saiu da sala, as duas anestesistas começam a conversar com a barbie chefe, sobre mim... ou melhor, sobre o meu passado obstétrico... eu a ignorar.... mas, naquela de me distrairem poem se a perguntar , ao certo o que é que as gemeas tinham!!! as minhas gémeas!!!!
passei-me! e gritei furiosa: olhem podemos NÃO conversar sobre esse assunto AGORA!!?? enfatizando que era um momento muito importante para mim e nao era de todo adequado estar a trazer á baila aquele assunto! Sairam da sala as duas. Andavam sempre aos pares..
Entrou outra equipa... os medicos que me tinham atendido nas urgencias la em baixo.
Começam a dizer é agora, pode fazer força que o bebe vai nascer.e começa o processo da força...
terá durado uns 15 a 20 minutos.
Eu apertava a mao do miguel... mudei de uma posiçao de costas elevadas, para ter as pernas numas perneiras..e la disseram para fazer força como quem faz cócó...o que é facto é que uma pessoa nao faz bem essa força porque tem medo que saia de facto coco, á frente de 10 pessoas...inclusive o marido!
e entao cansei me imenso a fazer força errada...
até que a dor era cada vez maior, cada vez maior, porque o bebe ja estava a passar a bacia...e eu: parem tudo! tenho de fazer xixi!!! e de facto eles disseram, temos de algaliá-la porque a bexiga está a atrapalhar.... e eu : tem mesmo que ser? e eles, isto não dói! lá fizeram aquilo, nao se sente nada... e depois ardeu... tiraram... e eu já nao tenho a algália? e eles... já não... e eu , que alivio! penso que aquilo deve ser super desconfortável....
Mais 7 minutos de faça força! faça força! todos a torcerem! mas diziam, não é na garganta...é lá em baixo! é lá em baixo!!
O miguel diz que eu estava tipo a inchar um papo debaixo do queixo, e a ficar com o pescoço todo vermelho...
até que dei dois gritos-os mais altos que consegui para exprimir a vontade que tinha de me libertar daquela situaçao e de soltar o bébé...o meu irmao que estava lá fora, na rua, disse que ouviu uns gritos que até se arrepiou todo...que pareciam do poltergheist! ah! ah! é que dei mesmo aqueles gritos à filme de terror! soube muita bem e serviu para me colocar tipo loba acima daquelas pessoas todas, compostas que nao estavam a rodear...serviu para eu encontrar a minha animalidade....eu cuja nudez e enormidade naquele momento nao seriam propriamente o canon de beleza feminina das revistas de moda!
Ali apercebi-me que estava prestes o momento...
Pedi á equipa: por favor avisem quando vier uma contracçao para eu fazer força a favor. a proxima é que é , juro... porque eles esmoreciam cada vez que nao era...
Faça força! faça força! Oh! nao está a fazer....
Soube bem sentir a mao e o apoio do miguel ali ao lado, que me conhecia e me dava valor... e as vezes servia de interprete...e eu seguia o que ele dizia, sendo o mesmo que o medico dizia... tipo segurar umas barras com as maos, e fazer força na barriga... E eu... a mentalizar-me... a sentir-me cada vez mais a estalar! a sentir, e lembrei-me do que me disse a AnaCris em Sintra: quanto voce sentir que está a morrer, o bébé está a nascer!
pensei, já fiz este caminho, deixa ver, como é o resto.. bora lá! nunca tive medo, nunca tive vontade de voltar para tráz... é tipo quando dás um salto da 4ª prancha numa piscina de saltos... vais atrás ganhar balanço...corres para o precipicio e tens de saltar! nao vais ficar no ar, tipo desenho animado a correr no ar!
então perdi a vergonha de fazer coco á frente daquela gente e comecei a fazer a força bem...que é imaginar que vou mesmo fazer caca á frente e na cara daquela gente toda!! puxa!
e não que era esse o truque? se eu soubesse ja tinha feito á mais tempo! aqui foi optimo receber um elogio deles, é isso mesmo! está a fazer bem está a fazer bem!
e nisto uma dôr lancinante que devia ser o anel de fogo... e aí senti-me desintegrar em particulas. aí já eu estava pulverizadaem átomos espalhados pela sala toda... deixei-me levar pela magia e sensação total que aquela dôr me fazia... estava acima da dôr fisica... estava a diluir-me no ar... estava etérea e já nao sentia mais dor nenhuma...descansei pensando: deve ser isto...
e eles...-Deixa vir por si....dizem calminhos. acalmam-se. oiço barulhos de ferros a fechar. começam a mudar a mesa de parto, mudam as coisas, fecham outras. Algures pelo meio eu digo vejam se nao tem circular! o meu irmao tinha circulares ao pescoço, e eles quem? e eu o meu irmao!!! pelo sim pelo nao disse isto..e de facto o bébé tinha ocordão tipo cinto de segurança...eles metem-no para dentro, metem o clampo e cortam o cordao antes do bebe sair todo...
nesta parte já estava eu aliviada e a saber que estava quase a sentir aquela coisa do bébé escorregar todo tipo um peixe ou uma lula, de dentro de mim cá para fora...
Saiu. puseram-no na minha barriga e eu passei-lhe a mao pelas costas... humidas e rugosas porque eles nascem quase so pele e osso... ele vinha super humido super quente, a pulsar vida!!! e eu tinha a mao dada ao miguel, e lembrei-me de estar com ele e senti uma enerigia fortissima de calor de fogo ali entre nós...
Eu que estivera de olhos sempre fechados, abri um bocadinho e vi obébé a ser levado para a mesa ao lado. e só perguntei:o bébé está bem? o bébé está bem?
e eles.... está tudo bem com o bébé,,,,
e ouvi-os a ditarem as medidas e o peso...e percebi finalmente a função da barbie de 60 anos... apontar num papel as medidas do bébé...
neste momento o miguel dá-me um beijo na boca, e ficamos assim enconstados a sentir um grande fogo ... uma grande força... uma grande vitória..
.entao meu pai e fica ali ao meu lado, durante a dequitadura...e coserem-me...e eu au! au! aquilo aleijava mais que o parto! e ele: -nao quiseste a picada da epidural! agora sentes estas picadas!!
e eu: fui valente papi? e ele...tu és maluca, filha! mas portaste te muita bem! agora vou embora, vou mandar mensagens a toda a gente a dizer: os pais e o bébé estão bem, o avô nem por isso!
mas lá foi, depois de me garantir que o bébé estava mesmo bem... daqui fui numa maca para um quarto qualquer intermédio, com o bébe ao lado e com o miguel...
eram 2:22 quando nasceu...
estive com o miguel até ás 4h, depois mandaram-no embora, levaram-me a passear pelo hospital e eu a sossegar o meu bébé.. consolávamo-nos uma o outro...eu já sentia que o protejia, debaixo dos lençois, ao entrarmos no elevador e a percorrer os corredores de um hospital á noite, com a perspectiva de quem está numa maca,,, vê-se muito em filmes... um plano picado, de baixo para cima...
o meu pequenino...rôxo de frio...avisei as enfermeiras que o levaram para lavar e vestir..que estava roxo... e foram medir os niveis de O2 etc....
fiquei no quarto do hospital a agradecer tudo o que se tinha passado... até que mo trouxeram e de-lhe de mamar e conforto. e depois meti-o na caminha dele, e escrevi muito... passei a noite a reviver tudo... com ele deitado de barriga para baixo sobre a minha barriga, para ficar quentinho.
escrevi muito foi mais de manha...ainda sem sono...estou sem sono até hoje. só consigo dormir quando o miguel toma conta dele, no fim da madrugada e manha... só nessa altura é que tenho sonhos... de resto é passar pelas brasas.. em alerta..
nos dois dias seguidos fiquei no hospital.. uma empregada de limpeza dizia-me em crioulo:-Outra vez no 'côlu', máis essi bêbê tá sempri nu côlu...!?
e eu pois tá. para ficar mais quentinho...
Fez-me impressao os outros bébés a gritar com maes que nao os conseguiam acalmar. vou fazer algo sobre isso,. um cartaz, a explicar como acalmar um bebé. elas lá não explicam... mas um bébé até aos 3 meses é mais um feto do que um bébé. tem que se reproduzir o que eles tinham no utero. Há que pegar neles ao 'côlu' muito muito muito.Não se pode militarizar logo.!
Agora já o tenho há 4 dias e parece que o tenho há dois meses! cresce imenso... Há que aproveitar bem.. bom, parece que estou aqui há horas,,, mas ao menos já tenho a historia registada...nunca me quero esquecer...
Guida Casella

4 comentários:

duARTEE disse...

obrigado, Gui por partilhares este momento connosco (é pena não participares no nosso blog)

sempre a considerar

neorui disse...

Haja alguem que faça esse manual de intruções :)
que relato emotivo, até me doia a ler.
não devia dizer mas perderam um grande episodio do CSI ..
ah pois perderam ;)
lotz&lotz of hapiness 2 u 3 !

analuE disse...

È por essas e por outras que eu considero um privilégio ser-se MULHER . Lá tá a gaja armada em feminista chauvinista. magnífico relato/experiência contado na 1ª pessoa revelando a bravura e superioridade no sexo feminino. Excelente trabalho Gui.

Anónimo disse...

PARABÉNS!!!
Mas eu fiz uma cesariana por opção para não passar por isso tudo e não me arrependo, nem me sinto menos mãe que qq outra. Hoje em dia, sofrer pra k?