quinta-feira, 24 de março de 2011

(o lado da historia que os Paulos Portas deste país não têm capacidade para perceber... pq o umbigo não deixa)

por Vanessa da Silva Miranda

Mais do que descrever a manifestação, do que descrever o sentimento de ter participado na luta pelo próprio futuro, importa a história.
“O meu nome é Vanessa, tenho 24 anos a caminho dos 25. Não sou casada, nem vivo com ninguém, não tenho filhos e nem ouso sonhar com isso. Não tenho uma casa minha, nem um carro. Nada do que existe na minha vida é meu... é dos meus pais, pois é o dinheiro deles que paga as imperiais no bairro, os almoços durante a semana no estágio, a roupa e os sapatos no meu armário, os sofás e móveis que estão na minha sala, a comida que enche o frigorífico e o próprio electrodoméstico, a televisão que vejo e a internet que uso. Nada é meu... não porque não queira, mas porque não posso. Tenho uma mesada de €400 por mês, o que é na verdade um luxo que poucos têm, e se antes os meus pais me pagavam a minha vida e todas as suas consequências e necessidades diárias, agora esforço-me para do dinheiro deles, do dinheiro que me dão, contribuir para as suas despesas. Não consigo evitar pensar no ridículo desta situação: ajudo os meus pais com o próprio dinheiro deles.

A minha licenciatura e o mestrado em comunicação social, tirei-os numa faculdade privada que me prometeu um curso de quatro anos e um estágio no final, para depois mos tirar sem sequer perguntar a minha opinião.
Disseram-me que sem um mestrado não ia arranjar emprego, mas nem com ele eu consegui mais do que uns miseráveis estágios, quatro para ser mais honesta. O primeiro foi curricular e portanto não mo pagavam, depois vieram os que arranjei por mim própria, apenas com ajudas de custo, cem euros aqui, mais cento e cinquenta ali. O trabalho, esse não tinha desconto de estagiária, trabalhei normalmente, contribui para o crescimento dos lugares por onde passei, para o desenvolvimento do país, mas esqueceram-se de me pagar na mesma moeda.
Nunca nenhum dos meus patrões achou que me explorava. Chegaram mesmo a dizer-me que ganhar currículo, experiência e fazer contactos era o melhor que podia esperar quando o país está em crise. Gostava de lhes dizer que no mini-preço ao pé da minha casa não aceitam contactos como pagamento pelas compras do mês e que a EDP não me deixa liquidar a factura da luz com experiências. Gostava que soubessem que não vivo do ar e que a escravatura já não é legal. Mas continuo sentada à secretária a trabalhar pela “bendita experiência” e pelo “enriquecimento do currículo”, enquanto os meus pais pagam o meu ordenado. Ou isto, ou fico em casa a ler livros. Nem nas lojas me aceitam, porque tenho experiência a mais e tempo a menos atrás de um balcão. Vou fazer a minha primeira viagem ao estrangeiro porque no Natal fiz um part-time numa loja. Já só penso em ir para o estrangeiro... é triste quando o país onde nasci, cresci e vivo não me deixa trabalhar.”

E as vossas histórias quais são?

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